sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O mais importante armário da minha história - Postagem 26


Nosso museu dispõe de oficina de restauro, cujos trabalhos por vezes são emoldurados por feliz nostalgia, como neste relato.
A arte do restauro excede ao mero trabalho reconstrutivo, visando interromper o processo de deterioração de objeto que acompanhou alguma fase da evolução humana.    Além desta assertiva, o restauro torna tangível algum importante passado histórico, alimentando a detalhada imaginação reportada à época, com seu simbolismo e emoção.


Esta postagem, revestida de sentimento, reporta-se à história da construção de um simples e acanhado armário de madeira.







Um ano após o fim da segunda guerra, um jovem militar, tendo concluído seu curso de sargento no Rio de Janeiro (na época, capital federal), foi assumir uma estação de comunicações do exército, na cidade litorânea de Torres, Rio Grande do Sul.  





Comandando alguns soldados, submeteu-se às condições precárias, com um pequeno gerador de energia elétrica, poço para abastecimento de água e paradoxais imensos equipamentos de rádio transmissão cedidos pelos aliados.  

A pequena Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, na época
 

Mergulhado neste universo, em meses, e já considerado autoridade na pequena urbe, casou com uma linda jovem de Porto Alegre.  Para abrandar a melancólica surpresa dela, acostumada às benesses sociais da capital gaúcha, pôs-se ele mesmo a fabricar a própria mobília, limitada a um fogão de tijolos, mesa, bancos, prateleiras, um berço para o primogênito a caminho (autor desta postagem), etc. E, é claro, motivo do título, o pequeno armário. 

Construído com pedaços de descartadas caixas de material do exército, utilizando ferramentas rudimentares e realizando esmerados encaixes, embora com a limitada dimensionalidade do material.   






Componentes de rádio, armas, munição, material de cozinha, etc... vinham devidamente embalados em caixas semelhantes à da foto, as quais depois de descartadas, eram cuidadosamente desmontadas e serviram de elementos para a construção do citado armário.






Paredes, vistas e encaixes resistiram a setenta anos



Assim, trabalhando nas horas vagas conseguiu construir o pequeno armário, com cerca de um metro de altura, oitenta centímetros de largura e trinta de profundidade.  Possui duas portas com precisos encaixes em seus perímetros e lâmina esbelta central.  Duas gavetas na parte superior.  Como na pequena cidade não havia loja com acessórios para mobília, ele executou os puxadores de madeira, de maneira criativa e perfeita. 

Estrutura interna (vigas) foi executada sob milimétricos encaixes (vista externa). À direita: Interior da parede  ainda conserva a tonalidade original verde oliva das antigas embalagens bélicas.
 







Possuía fechadura com chave (vista interna), já inoperante há várias décadas, flagrantemente instalada por meios primários (serra fina).

A operação de restauro procurou manter todas as características do histórico e vetusto móvel, incluindo suas marcas de idade, ferragens (parafusos, pregos,..).






Porém, alguns raros parafusos que tiveram parte de seu corpo destruído por oxidação, necessitaram substituição por outros atuais similares e envelhecidos a fogo.



Poucas trincas, oriundas de natural desidratação da madeira septuagenária, foram delicadamente preenchidas com massa (pó de lixamento e selador), alguns pregos corroídos foram retirados e substituídos por similares. 

Após conferir suas diagonais, colocou-se o móvel em esquadro (isometria) com auxílio de tensores oblíquos.

A idade do armário promoveu algumas folgas nos encaixes, que foram delicadamente restaurados e solidarizados com emulsão vinílica transparente, colocados sob prensa.   

 








Na década de 1950, um puxador (manopla) da portinha foi quebrado, ocasião em que este seu filho, com cerca de 10 anos de idade, substitui-o por um isolador elétrico de louça, o que perdurou até o presente restauro.







Foi executado um novo puxador, copiado milimetricamente dos existentes nas gavetas, com madeira semelhante, afixado com parafusos tratados.


Um lixamento leve (granulometria 220) retirou as imperfeições das várias camadas de verniz existentes em todo o móvel, sem danificar a madeira, nem esconder as marcas da idade. 
Foi aplicada uma fina camada de verniz (Copal) para proteger a madeira, evitando alterar suas características originais.


Ao admirar sua construção, em 1946, executada por um jovem, desconhecedor da arte da marcenaria, imaginamos a dimensão de sua dedicação nesta nobre e árdua empreitada.  

Espero que, com este especial restauro, mantendo seus sinais do tempo, sua presença seja mantida por mais setenta anos, para que os filhos de meus netos tenham o mesmo prazer em prolongar-lhe a vida.

Este pequeno armário serve-me como exemplo de vida, ao vê-lo diariamente, relembro os tantos bons momentos que tive com seu construtor  (meu pai), soberbo integrante do time celestial há quatro décadas.   

Das tangíveis memórias de meu saudoso pai

Prof. Darlou D’Arisbo